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Câmeras com IA alertam sobre crimes, mas geram preocupações

Sistemas de monitoramento com inteligência artificial prometem prever crimes antes que ocorram. Conheça como funcionam e os riscos à privacidade.

Câmeras com IA alertam sobre crimes, mas geram preocupações
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Câmeras com inteligência artificial transformam monitoramento de segurança

Os sistemas de câmeras com inteligência artificial estão revolucionando a forma como as empresas e órgãos públicos abordam a segurança. Diferentemente dos equipamentos convencionais que apenas registram imagens, as câmeras com inteligência artificial agora conseguem antecipar comportamentos suspeitos e alertar operadores em tempo real. Essa evolução tecnológica promete reduzir significativamente o número de incidentes criminosos, mas simultaneamente desperta preocupações legítimas sobre o direito à privacidade dos cidadãos.

O chamado policiamento preditivo utiliza algoritmos avançados para identificar situações fora do padrão antes que elas resultem em delitos. Com o apoio de inteligência artificial, essa tecnologia tem sido implementada em cenários cada vez mais complexos, desde ambientes urbanos até instalações industriais e condomínios residenciais.

Como funcionam as câmeras com inteligência artificial

O funcionamento das câmeras com inteligência artificial baseia-se em um processo sofisticado de transformação e análise de dados visuais. Segundo Nicolau Ramalho, fundador da NoLeak, empresa desenvolvedora de sistemas de policiamento preditivo: "O sistema se conecta à câmera, transforma a imagem em metadados e reconhece padrões. Se o padrão da imagem for alterado, ele emite um alerta".

Os metadados representam a conversão de elementos do vídeo em sequências numéricas que podem ser processadas rapidamente por máquinas. Os sistemas são inicialmente treinados com imagens de situações consideradas normais, permitindo que posteriormente identifiquem quando algo foge desse padrão estabelecido. Esse processo de aprendizado requer aproximadamente duas semanas de análise contínua para formar uma base de dados suficiente e confiável.

Diferentemente do que muitos imaginam, o sistema não toma ações autônomas ao detectar comportamentos suspeitos. Em vez disso, recomenda que as imagens sejam revisadas por responsáveis humanos, como chefes de segurança ou operadores especializados. "Os alertas vão para um sistema de gestão de vídeo, e o operador toma a atitude que achar pertinente, seja acionar diretamente uma força policial ou o time de segurança privada", explica Ramalho.

Aplicações práticas e benefícios operacionais

A NoLeak, uma das principais empresas do setor, conta atualmente com mais de 5 mil câmeras conectadas e 100 clientes, incluindo indústrias, condomínios e empresas de diversos portes. Conforme informações da empresa, o sistema reduz significativamente o cansaço visual dos operadores e permite monitorar até 10 vezes mais câmeras com o mesmo número de funcionários.

Além da detecção de comportamentos criminosos, as câmeras com inteligência artificial possuem outras aplicações. O sistema é capaz de verificar se há erros em linhas de produção, monitorar o nível de ocupação em esteiras industriais e identificar funcionários fora de seus postos de trabalho. Essas funcionalidades adicionais ajudam a evitar paradas não programadas e aumentam a eficiência operacional das empresas.

Empresas concorrentes como Actuate, AxxonSoft e Coram também oferecem soluções semelhantes, prometendo transformar câmeras convencionais em sistemas inteligentes capazes de prever possíveis crimes e otimizar operações.

Preocupações sobre privacidade e direitos fundamentais

Apesar dos benefícios prometidos, especialistas alertam para os riscos potenciais dessas tecnologias. Fernanda Rodrigues, coordenadora de pesquisas do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS-BH), expressa uma preocupação fundamental: "Não estamos falando somente de criminosos que vão ser efetivamente alcançados, mas também de cidadãos comuns que, a caminho do trabalho, podem passar por um sistema que levou a um erro".

A implementação de câmeras com inteligência artificial demonstra a expansão contínua da tecnologia na segurança pública, apesar de dúvidas persistentes sobre sua eficácia real e seus impactos sociais. Para Fernanda Rodrigues, observa-se um crescimento na busca por ferramentas que sejam apresentadas como "solução mágica" para problemas históricos da segurança pública brasileira.

A questão central é que esses sistemas não apenas monitoram criminosos, mas potencialmente restringem o direito de ir e vir de cidadãos comuns, criando um estado de vigilância permanente sobre pessoas que não estão praticando nenhum crime.

Os desafios técnicos da previsão de crimes

Os sistemas mais avançados de policiamento preditivo utilizam modelos de aprendizado de máquina para reconhecer padrões em imagens. Em vez de seguir apenas regras previamente programadas, eles analisam grandes volumes de vídeos para aprender quais comportamentos são considerados normais.

Quando treinados com imagens de uma via pública, por exemplo, os sistemas aprendem a identificar onde ficam as faixas de circulação e os locais apropriados para circulação de veículos. Se um carro passar pela contramão ou pela calçada, o sistema identifica essa anomalia e indica que algo está fora do padrão esperado.

Importante salientar que as câmeras com inteligência artificial focam em movimentações suspeitas de pessoas, não em suas características físicas. "Ele não identifica o rosto para analisar o comportamento. O que ele faz é transformar a imagem em metadados e reconhecer padrões", esclarece Ramalho.

Casos internacionais e falta de transparência

Estudos independentes demonstram que a avaliação da precisão desses sistemas e a ausência de vieses depende de transparência total sobre seu funcionamento. Como aponta Fernanda Rodrigues: "A opacidade é um dos principais problemas, principalmente por a gente não saber a eficiência dessas ferramentas. Na verdade, o que sabemos é que há estudos que as apontam como significativamente falhas".

Um caso emblemático é o do PredPol, um sistema implementado nos Estados Unidos que reunia dados históricos como data, hora e local de crimes para orientar patrulhas policiais. Na prática, o sistema levou policiais a patrulharem ainda mais bairros com renda familiar baixa e menor proporção de moradores brancos, aumentando significativamente as abordagens policiais indevidas em comunidades vulneráveis.

O PredPol foi descontinuado em 2020 pela polícia de Los Angeles após pressão de grupos ativistas que criticaram tanto a falta de eficiência do programa quanto a vigilância excessiva sobre comunidades negras e latinas.

Regulação no Brasil e perspectivas futuras

Atualmente, o Brasil não possui uma lei específica para regulamentar sistemas de policiamento preditivo. Contudo, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece regras para o tratamento de informações sensíveis, incluindo dados biométricos.

Em 2025, uma portaria publicada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública estabeleceu que as polícias podem utilizar inteligência artificial, mas devem realizar revisões humanas em casos de possíveis riscos a direitos fundamentais.

Um projeto de lei em discussão no Congresso Nacional pode classificar como de alto risco os sistemas de IA usados por policiais para analisar grandes volumes de dados. O texto, já aprovado no Senado e em discussão na Câmara, prevê que ferramentas classificadas como alto risco tenham supervisão humana obrigatória, passem por avaliação de impacto, garantam o direito à explicação para pessoas afetadas e adotem medidas concretas para evitar discriminações.

A evolução das câmeras com inteligência artificial representa um ponto de inflexão importante na discussão entre segurança pública e proteção de direitos fundamentais, exigindo regulação cuidadosa e transparência total sobre seu funcionamento.

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