Opinião Pública 24 Horas. O seu jornal local
Tecnologia

Economista explica insatisfação dos brasileiros

Laura Carvalho analisa por que brasileiros estão insatisfeitos com economia apesar de crescimento. Redes sociais ampliam desejos de consumo além da renda.

Economista explica insatisfação dos brasileiros
Fonte: g1.globo.com/economia/noticia/2026/07/11/a-economista-que-tenta-entender-a-insatisfacao-dos-brasileiros-sob-lula-redes-sociais-criam-desejos-de-consumo-para-alem-do-crescimento-da-renda.ghtml

O Paradoxo da Economia Brasileira

A insatisfação dos brasileiros permanece um dos maiores mistérios da administração Lula. Enquanto indicadores macroeconômicos mostram recuperação significativa, com desemprego em mínimas históricas de 5,6% e crescimento econômico acima das projeções, a percepção da população sobre a economia segue pessimista. Uma pesquisa Genial/Quaest de junho revelou que 44% dos entrevistados afirmam que a economia piorou nos últimos 12 meses, contra apenas 20% que notam melhora.

A economista Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável de Lula, dedica-se a compreender esse descolamento entre a realidade econômica e a percepção popular. Recentemente, ela publicou o artigo "Paradoxos do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia", em parceria com seu marido, o economista Guilherme Klein Martins.

Os Quatro Fatores da Insatisfação dos Brasileiros

Segundo Carvalho, a insatisfação dos brasileiros resulta de quatro elementos principais. Primeiro, os efeitos persistentes da inflação sobre o bem-estar das famílias. Segundo, a comparação com o ciclo de mobilidade social dos anos 2000, período de prosperidade durante os dois primeiros mandatos de Lula. Terceiro, a transformação dos desejos de consumo da população, impulsionada significativamente pelas redes sociais. Quarto, a frustração de uma geração com educação superior que não consegue empregos compatíveis com sua formação.

"Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil", observa Carvalho em entrevista. "Você não só está vendo o que consome uma pessoa no seu bairro, na sua família, você está vendo o que consome uma pessoa da classe média europeia ou um rico no seu país."

Redes Sociais e Consumo Aspiracional

O fenômeno do consumo aspiracional amplificado por plataformas digitais representa uma mudança qualitativa no comportamento econômico dos brasileiros. Diferentemente de décadas anteriores, quando o padrão de consumo era determinado principalmente pelo círculo social próximo, as redes sociais homogeneizam e globalizam os desejos de forma rápida e única na história.

Carvalho destaca que esse comportamento não é novo na teoria econômica. O economista James Duesenberry estudou como pessoas consomem emulando o padrão de classes mais altas, mesmo com renda insuficiente. No entanto, a intensidade e a velocidade desse fenômeno mudaram radicalmente com a era digital.

"Muitos estudos mostram que as pessoas se frustram pelo fato de estarem vendo essa ostentação, que não é só a ostentação de bens de luxo, mas também do que as pessoas fazem com seu tempo livre, a viagem, o lazer. Consumo não é só coisas, é um padrão de vida", explica a economista.

Diferenças entre os Anos 2000 e o Governo Atual

A insatisfação dos brasileiros contrasta significativamente com o otimismo dos anos 2000. Durante os primeiros governos Lula, a distribuição de renda na base da pirâmide combinada com crescimento econômico expressivo incluiu pessoas totalmente excluídas do mercado consumidor. Famílias ganharam acesso a geladeiras, viagens de avião e formou-se uma nova classe média.

"Ali nos anos 2000, a distribuição de renda na base da pirâmide e o crescimento econômico expressivo incluíram uma parte da população no mercado consumidor que estava totalmente excluída desse mercado. Que passou a ter acesso a geladeira, a viagem de avião. Surgiu uma nova classe média, que hoje já não é mais satisfeita com esse mesmo padrão de consumo", afirma Carvalho.

Atualmente, embora haja crescimento de renda, este ocorre sobre níveis deprimidos após uma década com escasso crescimento per capita. Apenas em 2024 as pessoas recuperaram a renda que possuíam em 2014. O crescimento não é tão robusto quanto foi nos anos 2000, e ocorre sobre a memória de uma maior prosperidade anterior.

Concentração de Riqueza e Perpetuação da Desigualdade

A insatisfação dos brasileiros também está conectada à persistência da desigualdade econômica. O Relatório de Desigualdade Global de 2026, divulgado por economistas ligados a Thomas Piketty, mostrou que a desigualdade no Brasil segue entre as mais altas do mundo, inclusive crescendo entre 2014 e 2024.

Carvalho explica que o Brasil reduz a desigualdade entre o meio e a base da pirâmide através de programas sociais e valorização do salário mínimo, mas não conseguiu reduzir a desigualdade entre o topo e o meio. "Toda a redistribuição que a gente teve nos anos 2000 se deu entre esse meio e a base, onde a desigualdade já não era tão alta. Mas a desigualdade entre o topo e o meio não foi reduzida, ela se manteve elevada ao longo das últimas décadas."

A Agenda Tributária como Solução

Para reverter a insatisfação dos brasileiros, Carvalho propõe avanços na tributação. O terceiro mandato de Lula iniciou esse processo com a reforma do Imposto de Renda, que atribuiu alíquota mínima de 10% para os mais ricos e ampliou a isenção para quem ganha até R$ 5 mil.

Contudo, a economista argumenta que o debate deve avançar para formas de taxação de riqueza. "O debate tem que avançar no próximo período para alguma forma de taxação de riqueza, porque taxar a renda pode até frear a concentração, mas não corrige o que historicamente acumulou."

A concentração de riqueza no Brasil é mais elevada que a concentração de renda. Esse patrimônio concentrado perpetua a desigualdade não apenas economicamente, mas também politicamente, pois a influência do topo é desproporcional e atua para preservar as estruturas existentes.

O Papel da Dívida Pública

Carvalho também destaca o papel crítico da dívida pública na perpetuação da insatisfação dos brasileiros e da desigualdade. "O Estado brasileiro, por meio da dívida pública elevada, que paga juros muito altos, acaba transferindo renda para os mais ricos e atuando para perpetuar essa desigualdade elevada."

Muitos detentores da dívida são pessoas de alto patrimônio que obtêm rendimentos elevados praticamente sem risco. Isso significa que o governo, através dos juros pagos, transfere renda para os mais ricos. "Inclusive, me parece que o custo distributivo da dívida é algo que a gente não fala muito", problematiza a economista.

Caminhos para Novo Ciclo de Prosperidade

Para superar a insatisfação dos brasileiros e gerar um novo ciclo de prosperidade, Carvalho propõe uma abordagem tríplice. Primeiro, a economia precisa crescer muito mais, elevando o nível de renda de forma significativa. Segundo, essa renda deve ser redistribuída através de política tributária progressiva e taxação de riqueza.

Terceiro, é necessária uma agenda ampla de serviços públicos. Melhorias na saúde, educação, transporte e outros serviços reduzem o que as famílias gastam com setores privados, liberando renda para outras aspirações. "Um plano de saúde que deixa de ser necessário porque o SUS atende, ou uma educação privada que deixa de ser necessária porque o sistema de educação atende. Isso já libera muita margem para que as pessoas deem vazão às suas ambições e aspirações", explica.

Qualificação Profissional e Emprego

A insatisfação dos brasileiros também está ligada ao descompasso entre educação e oportunidades de trabalho. O Brasil expandiu significativamente o acesso ao ensino superior através do Fies, Prouni e expansão das universidades federais durante governos petistas anteriores.

Contudo, muitos graduados buscam empregos qualificados num mercado que gera principalmente postos de trabalho com salário mínimo em setores de baixa qualificação. "Passamos a ter uma geração inteira de pessoas com diploma universitário que hoje procuram empregos num nível de qualificação maior do que os seus pais tinham. E os empregos que estamos gerando são de um salário mínimo e em setores de serviços de baixa qualificação."

Para resolver este problema, Carvalho propõe uma política de desenvolvimento que combine educação com estratégia industrial. É necessário identificar setores onde o Brasil tem competitividade e integrar universidades, institutos federais e o Sistema S nessa estratégia de geração de empregos qualificados.

Perspectivas Futuras

A insatisfação dos brasileiros não desaparecerá rapidamente. Dado que a renda ficou estagnada durante uma década, será necessário tempo até que as pessoas se sintam satisfeitas com seu padrão de vida. "Precisamos chegar num ponto em que as pessoas se sintam satisfeitas, que o salário no fim do mês seja suficiente para dar vazão àquilo que elas entendem como um padrão de vida confortável", conclui Carvalho.

A economista atualmente trabalha em um novo livro analisando o ciclo necessário de prosperidade econômica no Brasil. Seu objetivo é identificar agendas que permitam superar os desafios atuais respeitando as restrições fiscais e avançando a redistribuição de renda para que a maioria da população brasileira se beneficie do crescimento econômico.

Também na sua zona