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China reduz importações de alimentos; impacto no agronegócio brasileiro

A China implementa plano de autossuficiência alimentar com metas até 2030. Saiba como a estratégia afeta o agronegócio brasileiro e exportações.

China reduz importações de alimentos; impacto no agronegócio brasileiro
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

China busca maior autossuficiência alimentar

A estratégia de China reduz importações de alimentos representa uma mudança significativa nas políticas globais de segurança alimentar. O presidente Xi Jinping, há mais de uma década, reforça que "a tigela de arroz do povo chinês tem que estar firme nas próprias mãos, cheia principalmente de comida chinesa". Essa premissa direciona todas as iniciativas de segurança alimentar implementadas pelo governo asiático.

O 15º Plano Quinquenal chinês, divulgado no início de 2025 para o período 2026-2030, estabelece objetivos concretos para reduzir a dependência externa. Esse documento estratégico reúne as principais metas de desenvolvimento econômico e social, incluindo ampliação da produção interna de produtos nos quais o Brasil é fornecedor principal, como soja, milho e carne.

Metas ambiciosas de segurança alimentar

O plano chinês apresenta objetivos detalhados para aumentar a produção doméstica. A China pretende elevar a capacidade de produção anual de grãos para 725 milhões de toneladas até 2030, comparado aos pouco menos de 715 milhões colhidos no ano anterior. Além disso, o governo planeja aumentar de 64% para 67% a contribuição da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento agrícola.

Quanto à dependência da soja importada, o plano prevê reduzir a participação do farelo de soja na ração animal de aproximadamente 14% para menos de 10% até 2030. Na autossuficiência geral, a China estabeleceu metas de produzir ao menos 95% dos grãos básicos, como arroz e trigo, internamente. Para carnes bovina e ovina, o objetivo é alcançar 85% de autossuficiência, enquanto para leite a meta é 70%.

Progresso nas metas atuais

De acordo com análises de especialistas que acompanham a política pública chinesa, a China já atingiu a meta de autossuficiência em grãos básicos como arroz e trigo. A produção desses alimentos já supera em mais de 100% a demanda interna, conforme dados do Escritório Nacional de Estatística do governo chinês. No entanto, o país ainda está abaixo das metas para outras categorias. Na produção de carne bovina e ovina, o país consegue suprir apenas 70% da demanda interna, enquanto em leite esse percentual é de 62%.

Impacto direto nas exportações brasileiras

As políticas de autossuficiência alimentar da China afetam diretamente o Brasil, maior fornecedor de produtos agrícolas para o mercado chinês. No ano passado, a China importou um volume recorde de quase 112 milhões de toneladas de soja, com mais de 70% originária do Brasil. A produção chinesa responde por apenas cerca de 20% da demanda do país.

No mercado de grãos, o Brasil já sentiu o impacto significativo nas exportações de milho. No ano passado, a China registrou uma safra recorde e reduziu as importações do cereal de 8,4 milhões de toneladas em 2024 para menos de 4 milhões em 2025. Como resultado, o valor das exportações brasileiras de milho para a China caiu 20,8% no ano passado, segundo dados do Ministério da Agricultura.

Cotas de importação de carne bovina

Outro reflexo do movimento pela autossuficiência já apareceu claramente no mercado de carne bovina, com a adoção de cotas para o Brasil e outros países exportadores. Em janeiro, a China estabeleceu uma sobretaxa de 55% sobre as importações de carne brasileira que ultrapassarem 1,1 milhão de toneladas. Em julho, esse limite já foi batido, segundo levantamento de consultores especializados em comércio agrícola.

A cota nasceu de uma investigação de salvaguarda, e o próprio Ministério do Comércio chinês foi explícito ao justificá-la: a carne importada estava prejudicando a indústria doméstica, e a medida serviria para estabilizar o rebanho e dar tempo aos produtores chineses de se reorganizar. No entanto, especialistas argumentam que essa política encontrará um teto natural.

Déficit estrutural chinês

A China produz cerca de 7,8 milhões de toneladas de carne bovina e consome próximo a 11 ou 12 milhões de toneladas anuais. Esse déficit é estrutural, pois a OCDE projeta que chegará perto de 4 milhões de toneladas por ano até 2032. A cota, portanto, administra o ritmo da importação e protege o pecuarista local, mas não elimina a dependência do país asiático de importações de carne.

Estratégias para o agronegócio brasileiro

Diante da nova realidade, especialistas em comércio internacional e agronegócio recomendam que o Brasil adote abordagens diferenciadas. Uma saída essencial é diversificar os destinos de exportação. Em 2025, o Brasil abriu mais de 200 novos mercados, sendo quase 20 deles para carne bovina. Contudo, substituir parte do mercado chinês não será fácil, uma vez que a China compra metade de tudo o que o Brasil exporta de carne bovina.

Outra frente estratégica é ampliar a presença das empresas brasileiras na China para acompanhar mais de perto as mudanças regulatórias, tecnológicas e comerciais. A presença do setor privado brasileiro no país ainda está aquém da importância que esse mercado tem para o agronegócio nacional, segundo avaliações de especialistas.

Agregação de valor aos produtos

O caminho futuro não é vender mais toneladas, mas vender toneladas de melhor qualidade e maior valor agregado. Isso significa sair da commodity pura para cortes premium, produtos processados e marcas estabelecidas. O Brasil pode ainda criar novas oportunidades, como na área de produção de combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e para o transporte marítimo, setores que devem ampliar a demanda por matérias-primas agrícolas nos próximos anos.

Limitações geográficas da China

Embora tenha um território maior que o do Brasil, a China dispõe de uma parcela limitada de terras aptas à agricultura. Boa parte do país é formada por regiões montanhosas, áridas ou desérticas. Além disso, concentra menos de 5% da água doce disponível no planeta. Por esses motivos, os planos de ampliação de produção devem avançar principalmente por meio do aumento da produtividade, ou seja, produzir mais na mesma área com o apoio de tecnologias, como melhoramento genético de sementes e maquinário mais avançado.

A China vem intensificando investimentos em tecnologia e melhoramento genético, inclusive em sementes transgênicas, tema que até pouco tempo atrás era tratado como tabu no país. O objetivo é aumentar a produção sem ampliar a área plantada nem o consumo de água.

Perspectiva de continuidade nas relações comerciais

Especialistas reforçam que a nova estratégia da China está longe de provocar uma ruptura entre os dois países. Um sinal que vale mais que discursos é que os chineses estão investindo no Brasil para garantir abastecimento de alimentos. A COFCO ampliou terminal no Porto de Santos, comprou locomotivas e vagões, e há um memorando para estudar a ferrovia bioceânica ligando o Centro-Oeste ao Pacífico.

Ninguém investe em logística de longo prazo num fornecedor que pretende abandonar. O comércio agrícola entre os dois países já bate a casa dos US$ 100 bilhões por ano. O que muda é a exigência de qualidade e diversificação, não a importância fundamental do Brasil como fornecedor de alimentos para o mercado chinês. A capacidade da China de implementar objetivos estratégicos quando coloca seus esforços de tecnologia, educação e recursos financeiros deve ser levada em consideração nas análises de cenários futuros.

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