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Escafandristas remodel obra de Chico Buarque com sofisticação aos 82 anos

Quarteto carioca Escafandristas lança álbum com 15 músicas de Chico Buarque reimaginadas. Conheça as harmonias refinadas e participações especiais do novo disco...

Escafandristas remodel obra de Chico Buarque com sofisticação aos 82 anos
Fonte: g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/06/19/aos-82-anos-chico-buarque-tem-obra-remodelada-ao-feitio-sofisticado-dos-escafandristas-no-album-do-quarteto.ghtml

Quarteto Escafandristas reimagina cancioneiro de Chico Buarque em novo álbum

O quarteto carioca Escafandristas apresenta sua estreia discográfica com uma proposta ousada: reinterpretar a obra do compositor Chico Buarque através de uma visão sofisticada e personalizada. O álbum intitulado "Escafandristas cantam Buarque" foi lançado estrategicamente na véspera do 82º aniversário de Chico, celebrado em 19 de junho, reunindo 15 faixas do cancioneiro buarqueano transformadas pela criatividade do grupo formado há dois anos.

Sob direção musical de Thiago Amud, que também contribui com voz e violão, o projeto conta com participação de Alice Passos (voz, flauta, violão e percussão), Luisa Lacerda (voz e violão) e Renato Frazão (voz e baixo). Diferentemente de uma simples coletânea de covers, o trabalho transcende essa categoria ao mexer substancialmente nas harmonias e estruturas rítmicas das composições originais, mantendo respeito integral às melodias e letras.

Uma abordagem que ultrapassa o cover convencional

O álbum "Escafandristas cantam Buarque" posiciona-se estrategicamente fora do universo do cover tradicional. A sofisticação nas harmonizações vocais que permeiam o disco torna-o completamente inadequado para fins de karaokê, demonstrando o cuidado meticuloso com que cada arranjo foi desenvolvido. A abordagem do grupo revela uma compreensão profunda da obra buarqueana, combinada com identidade musical própria.

A abertura do álbum com "Construção" (1971) apresenta uma proeza arranjo: consegue se desvincular completamente do arranjo clássico criado pelo maestro Rogério Duprat para a gravação original. Essa reconfiguração demonstra a capacidade do quarteto em dialogar com obras consolidadas, oferecendo perspectivas novas sem desrespeitar sua integridade artística.

Destaques vocais e interpretações singulares

O dueto entre Thiago Amud e Luísa Lacerda em "Morro Dois Irmãos" (1989) expõe uma afinidade notável entre as vozes do diretor musical e o timbre do próprio Chico Buarque. Essa compatibilidade vocal estabelece uma ponte interpretativa que facilita a aceitação das reinterpretações propostas pelo grupo.

Renato Frazão desponta como intérprete masculino de significativa importância no projeto. Seu solo em "Cotidiano" (1971) constitui uma das gravações mais lapidares do álbum, onde o arranjo ecoa a repetição característica da vida conjugal cotidiana, com pausas sincronizadas aos versos da composição. A interpretação transcende a mera execução técnica, incorporando dimensões emocionais e narrativas ao texto musical.

Citações musicais e criatividade composicional

Uma característica distintiva do álbum envolve sete citações musicais estrategicamente inseridas em seis das quinze faixas. Em "Futuros amantes" (1993), menciona-se "Eu te amo" (Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim, 1980) durante a gravação. "Corrente" (1976) conecta-se a "Mambembe" (1972) através de citação que amarrada narrativamente ao tema.

O samba "Morena dos olhos d'água" (1966) emerge enriquecido pela menção de "Morena do mar" (1972), composição de Dorival Caymmi, ampliando as referências contextuais. A ciranda "Na ilha de Lia, no barco de Rosa" (Chico Buarque e Edu Lobo, 1988) também integra a tapeçaria sonora do disco, criando diálogos intertextuais que reforçam a coesão artística do projeto.

Participações especiais e momentos emocionais

"Assentamento" (1997) fundamenta-se em canto em uníssono que esboça dimensão emocional, embora essa qualidade se distribua de forma subjacente ao longo de um álbum marcado primordialmente pela excelência da musicalidade. A estupenda capacidade técnica dos Escafandristas permeia todas as 15 faixas gravadas no estúdio da gravadora Biscoito Fino.

Um momento particularmente tocante ocorre em "O que será (À flor da terra)" (1976), onde Ruy Guerra, parceiro histórico de Chico Buarque em "Fado tropical" (1973), recita seus próprios versos em meio ao canto majoritariamente a capella do quarteto. Essa configuração estabelece um diálogo geracional que homenageia parcerias criativas de décadas passadas.

Homenagem familiar e fechamento do álbum

As cinco netas de Chico Buarque – Cecília, Clara, Irene, Lia e Teresa – uniram-se em estúdio pela primeira vez para interpretar "As minhas meninas" (1987) em colaboração com os Escafandristas. Essa participação adquire dimensão afetiva significativa, especialmente ao incorporar citação do "Acalanto para Helena" (1971), canção de ninar composta por Chico para sua filha Helena, mãe de Clara e Cecília.

O álbum encerra-se com "Tempo e artista" (1993), cujo registro terno sublinha a transformação proposta pelo projeto: o quarteto Escafandristas remodela a obra do compositor ao feitio sofisticado do grupo em época onde a música de Chico Buarque já conquistou glória consolidada. O disco representa não apenas reinterpretação musical, mas reafirmação da vitalidade e universalidade de um cancioneiro que continua inspirando novas gerações de artistas a explorar suas profundezas criativas.

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