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Economia

Mudanças climáticas e crises alimentares aumentam risco de conflitos

Pesquisas mostram como escassez de alimentos e mudanças climáticas elevam risco de conflitos armados em regiões vulneráveis do planeta.

Mudanças climáticas e crises alimentares aumentam risco de conflitos
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

O impacto da crise climática nos sistemas alimentares globais

A instabilidade nos conflitos por alimentos representa uma ameaça crescente à paz mundial. O sistema alimentar global enfrenta pressões sem precedentes, resultado da combinação entre eventos climáticos extremos e tensões geopolíticas que interrompem as cadeias de suprimento internacionais. Secas severas, fenômenos como o El Niño e competição por recursos naturais criam um cenário de vulnerabilidade que especialistas alertam poder desencadear crises humanitárias e violência.

A situação se agrava quando consideramos que milhões de pessoas dependem de importações alimentares e vivem em regiões onde a produtividade agrícola diminui constantemente. O fenômeno El Niño, atualmente em desenvolvimento, ameaça reduzir ainda mais a disponibilidade de alimentos para populações já vulneráveis. Simultaneamente, conflitos armados como a guerra na Ucrânia provocam turbulências nos mercados de grãos, enquanto tensões envolvendo o Irã no Estreito de Ormuz elevam os preços dos combustíveis e fertilizantes, aumentando significativamente os custos para agricultores em todo o mundo.

Mapeamento das regiões mais afetadas pela redução agrícola

Um novo índice desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona oferece clareza sobre onde os riscos são maiores. O Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (Cadi) mapeia como as mudanças climáticas remodelam a produtividade agrícola globalmente, identificando padrões preocupantes em diversas regiões.

As perdas agrícolas mais severas concentram-se nas regiões tropicais, onde centenas de milhões de pessoas vivem em áreas onde as colheitas são menores do que há três décadas. Camboja, Bangladesh, Burundi, Nigéria, Paraguai e El Salvador já sentem os efeitos diretos dessa redução de produção. O Norte da África também apresenta situação crítica, com transformações que especialistas descrevem como terrível em seu impacto potencial sobre populações dependentes da agricultura.

Nos próximos vinte e cinco anos, quase metade da população mundial poderá viver em áreas onde as fazendas produzirão menos alimentos que atualmente. Essa tendência não resulta apenas de mudanças climáticas, mas também de guerras, interrupções comerciais, proibições de exportação e custos crescentes de insumos agrícolas que amplificam a insegurança alimentar em escala global.

Quando ganhos agrícolas geram novas tensões e disputas

Uma descoberta surpreendente da pesquisa revela que ganhos na produtividade agrícola também aumentam o risco de violência. A questão central não reside apenas na escassez, mas nas mudanças de distribuição de recursos. Alterações climáticas e choques econômicos não tornam apenas algumas regiões mais pobres; elas criam oportunidades econômicas que modificam o valor das terras e dos recursos naturais, gerando novas competições.

Terras antes consideradas marginais tornam-se mais produtivas e valiosas, atraindo investidores e estimulando a disputa pela propriedade e acesso a esses recursos. O Sudão, por exemplo, deverá produzir mais alimentos conforme o clima muda, porém outras áreas do país podem sofrer perdas, criando internamente novos vencedores e perdedores que elevam riscos de conflitos internos.

Em regiões estáveis e ricas, a crise climática também cria problemas futuros. Mudanças nas áreas adequadas para o cultivo de uvas na Europa já afetam agricultores locais. Grandes produtores de vinhos espumantes começam a comprar terras em regiões montanhosas onde as colheitas futuras serão viáveis em duas ou três décadas. Grandes empresas agrícolas deslocam moradores locais, preços de terras sobem e começam disputas por recursos ainda distantes de seu pleno potencial produtivo.

Democracia versus autoritarismo na gestão de conflitos por recursos

Uma das descobertas mais marcantes indica que transformações agrícolas têm probabilidade maior de gerar conflitos em países não democráticos. Quando choques climáticos, insegurança alimentar e competição por recursos atingem democracias, estas possuem instituições capazes de obrigar grupos com interesses divergentes a negociar em lugar de lutar.

Democracias, embora pareçam irritantes e burocráticas, possuem plataformas para negociação e instituições que ajudam comunidades a encontrar soluções. Esse processo contínuo de busca por consenso constitui o coração da prevenção de conflitos. Em contraste, países autocráticos carecem dessas estruturas institucionais, tornando populações mais vulneráveis a agitações sociais quando pressões sobre recursos se intensificam.

O Sul da Ásia como região crítica de vigilância

O Sul da Ásia emerge como região que demanda atenção máxima. Com população de cerca de dois bilhões de pessoas, depende tanto de recursos hídricos vulneráveis quanto dos mercados globais de alimentos. Essa dependência dupla cria cenário particularmente frágil quando consideramos as mudanças climáticas em desenvolvimento.

A região importa quantidades significativas de trigo, milho e óleo de palma provenientes de Rússia, Ucrânia, Canadá e Malásia. Simultaneamente, a agricultura local enfrenta ameaças crescentes de ondas de calor, enchentes, queda de produtividade das terras e intrusão de água salgada causada pela elevação do nível do mar. Enchentes devastadoras que atingiram o Nepal em agosto de 2026 oferecem visão dos desafios de longo prazo que se tornarão mais frequentes.

As cordilheiras do Himalaia e Hindu Kush fornecem a maior parte da água usada na agricultura e no abastecimento humano regional. Mudanças climáticas fazem geleiras e neve derreterem aceleradamente. No curto prazo, água do degelo amplifica disponibilidade hídrica, porém mais adiante neste século, a região poderá enfrentar crise humanitária afetando aproximadamente dois bilhões de pessoas.

Consequências sociais e políticas da insegurança alimentar

À medida que a insegurança alimentar se aprofunda, consequências sociais e políticas se multiplicam. Quando escassez de recursos ou impactos das mudanças climáticas obrigam pessoas a buscar outras formas de sustento, frequentemente acabam sendo recrutadas por grupos terroristas. Exemplos da Nigéria e do Afeganistão ilustram esse padrão preocupante de radicalização ligada à desesperação econômica.

Em outros casos, frustração populacional é direcionada aos governos quando estes não conseguem mitigar impactos sobre subsistência das pessoas. Legitimidade governamental passa a ser questionada, evoluindo potencialmente para conflitos violentos que desestabilizam nações inteiras.

Adaptação institucional como chave para prevenir violência

Mudanças climáticas, guerras e interrupções comerciais não levam automaticamente a conflitos. Entretanto, adaptação climática não pode se limitar ao cultivo de diferentes culturas agrícolas ou ao uso de novas tecnologias. Pessoas e sociedades precisam se adaptar às mudanças na distribuição de acesso à terra, água e empregos.

A questão fundamental reside em saber se sociedades possuem instituições capazes de administrar essas transformações. Onde governos, tribunais e instituições locais ajudam comunidades a negociar novas realidades, impactos de choques podem ser absorvidos. Onde essas instituições são fracas, pressão sobre sistemas alimentares se transforma em pressão sobre a própria paz, alimentando ciclos de violência e instabilidade que comprometem desenvolvimentos futuros.

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